terça-feira, 24 de julho de 2012

Semana Social Brasileira

Dom Guilherme Werlang, bispo de Ipameri (GO) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da CNBB, concede entrevista e trata de vários e importantes aspectos da 5a. Semana Social Brasileira que se realiza de 22 a 25 de maio de 2013 e está em sendo preparada em todo o Brasil.
O que são as Semanas Sociais Brasileiras? Quando iniciaram? Estão mais ligadas ao trabalho social da Igreja?
                                                                                                                                                      
D. Guilherme. É já uma tradição da Igreja no Brasil, que vem desde 1991, quando foi lançada a primeira semana social para celebrar os cem anos da Encíclica Rerum Novarum (1891) do Papa Leão XIII, que foi o primeiro “documento encíclica” a trabalhar de forma oficial a Doutrina Social da Igreja. Esta encíclica marcou o início da sistematização do pensamento social católico, chamado normalmente “Doutrina Social da Igreja Católica”. Claro que desde o tempo dos Apóstolos e dos Santos Padres a Igreja tem muitos escritos que apontam as questões sociais, a justiça social e a caridade como decorrência do Evangelho e exigência da verdadeira vida cristã. Mas, após o novo desenho e estrutura social que surgem com o Iluminismo, a Revolução Francesa, o Capitalismo, a Urbanização, a Indústria e o proletariado, este documento papal é, para a Igreja, o Marco Referencial dos demais documentos subseqüentes.
A V Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Aparecida destaca alguns campos prioritários e tarefas urgentes para a missão de todos os discípulos/as de Jesus Cristo no hoje da América latina e do Caribe: Justiça social, dignidade humana, opção pelos pobres e excluídos, renovada pastoral social, globalização da solidariedade, justiça internacional e cuidado com os rostos sofredores que doem em nós (cf DAp., 380 a 430). Portanto, a Semana Social deve envolver toda a Igreja e não apenas as pastorais sociais.

02. Quem são os organizadores e mentores das Semanas Sociais Brasileiras?

D. Guilherme. As semanas sociais brasileiras são inspiradas em semanas sociais de vários países da Europa, especialmente da França e Itália, países que já realizaram dezenas de semanas sociais. As Semanas Sociais Brasileiras são uma iniciativa, promoção, organização e coordenação geral da CNBB, mas elas pertencem à sociedade civil. A CNBB por meio das Dioceses e Paróquias, não realiza sozinha as Semanas Sociais. É um serviço que a CNBB oferece à sociedade brasileira. Portanto, os legítimos sujeitos das Semanas Sociais são os grupos sociais que aceitam o convite da CNBB e que se organizam para participar dos debates. Muitas vezes estes grupos da sociedade civil oferecem acréscimos e enriquecem o tema inicialmente proposto pela CNBB. Ampliam a visão e entram verdadeiramente na base do tecido social. Todas as Paróquias, Congregações Religiosas e suas Obras, pastorais e movimentos eclesiais, as comunidades eclesiais de ba se, os movimentos sociais, as organizações sindicais e as todas forças vivas da sociedade são chamadas/os a participarem como protagonistas do processo da 5a. Semana Social Brasileira. A CNBB não “dirige”, apenas orienta o processo. Convida Movimentos Sociais e representantes da Sociedade Civil para participarem da Equipe de Coordenação, o que sempre é uma riqueza. Cada vez mais devemos aprender a dialogar e trabalhar em equipe. Ninguém faz nada sozinho.
Como a realização da 5a. Semana Social Brasileira foi aprovada por unanimidade pelos bispos na Assembleia Geral de 2011, a CNBB confia sua realização à Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, a qual eu presido neste quadriênio.

03. Quantas Semanas Sociais já aconteceram? Há conquistas e vitórias que merecem uma comemoração ou celebração muito especial?

D. Guilherme. Já tivemos quatro (4) Semanas Sociais Brasileiras. Delas muitos bons frutos já foram colhidos. Destacamos o fortalecimento das Pastorais Sociais e sua articulação com os Movimentos Sociais, o Grito dos Excluídos, o Jubileu Sul, que trabalha a questão da dívida externa, a criação da ASA – Articulação do semi-árido, que tem construído 450 mil cisternas de captação de água de chuva no nordeste, o fórum das pastorais sociais, os plebiscitos, em especial contra a ALCA, a Assembleia Popular e, sobretudo, o despertar da consciência cidadã de muitos cristãos.

04. O tema da Semana é o Estado para que e para quem? Por que esse tema? Não é um tema da sociedade civil e mais ligado aos políticos e legisladores?

D. Guilherme. Todos os temas que dizem respeito ao ser humano também devem dizer respeito à Igreja. Temos plena consciência que se as reformas políticas e do Estado dependerem apenas dos políticos e legisladores, muito pouco poderemos esperar. O máximo que eles propõem são pequenos remendos, mas sem mexer na estrutura. O Estado brasileiro já foi criado para servir a grupos de interesse e não para todos os cidadãos e cidadãs que aqui viviam e vivem. Muitas vezes se usa e expressão: “ausência do Estado”. Creio que isso não existe. O que normalmente existe é a “presença” do Estado, mas do lado errado, isto é, não do lado do Povo, mas de pequenos grupos detentores de poder econômico e ou poder repressivo e punitivo. Muitas vezes os políticos e legisladores defendem interesses particulares de grupos, empresas e até de estrangeiros. Basta ver o fiasco que está o “Código Florestal” que de “Florestal” tem muito p ouco. Participar da construção de uma sociedade justa e solidária faz parte da ação evangelizadora da Igreja no Brasil. O Concílio Ecumênico Vaticano II afirma que a comunidade dos discípulos, que é a Igreja, está no mundo e sua missão consiste em ser sinal e instrumento do Reino de Deus na sociedade. E ainda: a primeira missão que Jesus confiou à sua Igreja não é de ordem social, política ou econômica, mas de ordem religiosa. Porém, desta dimensão religiosa, pode a Igreja extrair força e luz para ajudar a organizar a sociedade humana em seus aspectos políticos, sociais e econômicos, de acordo com os mandamentos da lei de Deus (cf GS 42).
No documento 91 da CNBB, “Por Uma Reforma do Estado Com Participação Democrática”, nós bispos afirmamos que “os novos sujeitos históricos colocam problemas que o Estado, na sua conformação atual, e o processo democrático, atualmente praticado, não estão preparados para responder. No surgimento de novos grupos sociais, as novas perguntas não obtêm respostas adequadas. Assim, o problema não é “o” Estado, mas “esse” Estado. Não entendemos que se deva ter em mente a inexistência do Estado, e sim, lançar sobre o Estado que temos um olhar crítico para verificar que outras formas podem ser buscadas”. (Doc. 91 da CNBB, 31).
Conscientes de que os novos sujeitos sociais exigem novas estruturas de participação democráticas, queremos, com a 5a. Semana Social Brasileira, criar canais de diálogo e de participação efetiva, para que a sociedade civil encontre mecanismos jurídicos que coloquem o Estado em movimento em direção da massa dos excluídos, ouvindo os seus clamores. Dessa forma, questionamos a atual forma de democracia, com seus ritos e com seu arcabouço jurídico. Tal modelo de democracia não mais responde a seus anseios e necessidades como cidadãos e sujeitos políticos. Queremos, para além da democracia representativa, uma efetiva democracia participativa.

05. É importante a Diocese e as paróquias se voltarem para o para evento dessa natureza? Por quê?

D. Guilherme. Há um apelo que vem do próprio Papa Bento XVI que serve de alerta às Igrejas. Segundo ele, o aumento sistemático das desigualdades entre grupos sociais no interior de um mesmo país e entre as populações dos diversos países, ou seja, o aumento maciço da pobreza em sentido relativo tende não só a minar a coesão social – e, por este caminho, põe em risco a democracia -, mas tem também um impacto negativo no plano econômico com a progressiva corrosão do ‘capital social’, isto é, daquele conjunto de relações de confiança, de credibilidade, de respeito das regras, indispensáveis em qualquer convivência civil. (Caritas in veritate, Bento XVI, 32).
Sendo assim, é fundamental a participação das dioceses e paróquias nestes debates, inclusive para ajudar a consolidar, aprofundar e salvar a democracia em nosso País. Ainda temos uma democracia muito frágil. Para ser plena, a democracia precisa assegurar a todos os cidadãos e cidadãs uma participação direta nas decisões que afetam a vida, sejam estas de ordem política, social, cultural, econômica ou religiosa. Nós temos ainda uma democracia muito representativa e pouco participativa. A democracia representativa mostra seu limite quando as decisões ficam exclusivamente nas mãos dos eleitos. Daí a necessidade de ela dar um salto para uma democracia participativa que implica na criação de mecanismos que assegurem a participação popular. É um equívoco reduzir a democracia ao voto livre e consciente. Se pararmos no voto, a democracia fica manca. Isso, infelizmente, temos visto, favorecendo aos que assumem o poder para dele se servirem em benefício próprio ou de seu grupo. O Papa João Paulo II, na encíclica “Centesimus Annus”, dizia que a democracia não pode “favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos”. Certamente nenhuma outra organização social tem a capilaridade da Igreja Católica em nosso país e nem tão pouco, a capacidade de organizar o povo para uma participação efetiva e permanente nos assuntos que são de interesse social. Assim, as dioceses e paróquias que se furtarem a neste momento histórico de uma participação neste debate, negam sua ajuda na construção do Estado brasileiro que queremos. Não podemos separar “fé e vida”.

06. Que resultados se esperam na Igreja do Brasil (dioceses e paróquias) dessa 5a. Semana Social Brasileira?

D. Guilherme. No Brasil há um grande descompasso entre “intenções democráticas” e as “estruturas antidemocráticas”. Isso tem deixado profundas marcas nos indivíduos, na sociedade e nas instituições, afetando a própria Igreja em sua missão evangelizadora. Vivemos também a contradição entre o crescimento econômico e o declínio social. De um lado, a concentração dos bens e de outro lado, a exclusão social. Há também uma violência às vezes velada e outras vezes aberta, promovida pelas estruturas do Estado.
Há uma orquestração para nos fazer crer que a violência vem das ruas, dos movimentos sociais, quando estes reivindicam mais democracia, mais participação nas decisões de governo, sobretudo, no que se refere à defesa de seus territórios, da Constituição Brasileira e das críticas e oposição aos grandes projetos, que sempre vêm acompanhados de seus desastres para a vida humana, o meio ambiente e as gerações futuras. Estes sofrem o processo de criminaliazação por parte do aparato punitivo do Estado. Doutro lado, a população percebe bem o tratamento diferenciado que é dado àqueles que são os verdadeiros sanguessugas da Nação e do Estado.
Temos que deixar sempre mais claro que Estado e Poder, Estado e Governo não são a mesma coisa. Nenhum Governo é o Estado. O Governo deve ser um serviço prestado, mas não é o Estado. Muitas vezes quem é eleito para um cargo de governo acha que é “dono” do poder e do Estado e se identifica com o próprio Estado e nós ficamos quietos e até achamos que estão certos. Isso tem que mudar. Nós temos que mudar nossa compreensão e ação.
Com este debate sobre o Estado, lançado nas ruas, queremos contribuir na superação dessa contradição fundamental existente na estrutura do Estado, no qual atestamos que falta Brasil para os brasileiros. Queremos resgatar, descobrir e dar visibilidade a tantos gestos de um novo Estado vividos nos porões da sociedade, mas que estão na sombra. Sabemos que o Estado é um estado, por isso, buscamos um Estado do Bem viver, do conviver e do pertencer para todos os brasileiros.


Para mais informações sobre a 5a. Semana Social Brasileira: http://www.semanasocialbrasileira.org.br/CNBB

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A convivência com o semiárido. Um novo paradigma.

A convivência com o semiárido. Um novo paradigma.


"Querendo combater a seca, nunca ganharemos. A convivência com o semiárido procura entender a natureza cada vez mais e organizar a vida e a produção conforme os parâmetros encontrados”, diz o agrônomo.

"Quando um ano de baixa precipitação assusta a sociedade e os governos, isso é um sinal de que até hoje o semiárido é uma região mal compreendida”. É com essa declaração que Haroldo Schistek comenta as notícias de que o semiárido brasileiro enfrenta a maior seca dos últimos 50 anos. Idealizador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada - IRPAA, ele esclarece que "anos de mais baixa precipitação não devem assustar a ninguém, ao contrário, devem ser considerados como fator de produção”. Para ele, as dificuldades do semiárido brasileiro estão relacionadas à falta de investimento dos governos estaduais e federal, que não propõe alternativas eficazes para assegurar uma vida digna no sertão. "Uma catástrofe, isto sim, é a falta de preparo dos nossos governos. Tiveram três décadas, deste a última grande seca, para não, mais uma vez, serem apanhados de surpresa. Porém, precisam mais uma vez tomar medidas de emergência, gastar somas vultuosas para evitar maiores prejuízos econômicos e mortes da população”.

Diante das dificuldades enfrentadas pelos sertanejos que dispõem de pouca terra e não têm infraestrutura para enfrentar os períodos mais críticos, Schistek lamenta: "Sabemos que para o povo, agora é a hora de cuidar da vida, ter carro-pipa, achar preço bom para os animais, procurar emprego para alimentar a família. Ir atrás de subsídios do governo. Serão longos meses de sol quente, de poeira e de muitas caminhadas e viagens. Será uma luta, uma batalha, até alcançar a próxima chuva”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Schistek destaca que o semiárido está sendo invadido por "mineradoras” e "projetos que expulsam a população, destroem a caatinga, explorando os bens naturais, sem maiores benefícios para as populações locais, causando desertificação”. A preservação da Caatinga, enfatiza, é fundamental para garantir a regularidade da temperatura, das chuvas e a fertilidade do solo do semiárido. Citando a frase dita por morador da região, ele é enfático ao comentar o projeto de transposição do rio São Francisco: "Para resolver os problemas do semiárido, não precisamos apelar para o São Francisco. O São Pedro dispõe de água mais do que o suficiente para sermos uma região próspera”.

Na avaliação do agrônomo, a mudança no semiárido brasileiro também depende de uma educação contextualizada, que integre o semiárido e a Caatinga. "Ainda recentemente, encontramos um livro didático, no capítulo sobre os biomas brasileiros, que mostrava uma foto da Caatinga nos meses da estiagem, com a legenda inacreditável: ‘Caatinga morta’. Na verdade, os arbustos e árvores retratados somente estavam em hibernação, cheios de seiva e nutrientes, esperando apenas a primeira chuva para se vestirem novamente em abundantes roupas de folhas e flores”, explica.

Haroldo Schistek é teólogo pela Universidade de Salzburgo, Áustria, agrônomo pela Universidade de Agricultura em Viena e da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco em Juazeiro, na Bahia. É idealizador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada - IRPAA, com sede em Juazeiro, fundado em 1990. Trabalha com assessoria relacionada a recursos hídricos, desenvolvimento rural, beneficiamento de frutas nativas, questões agrárias, entre outras áreas. É elaborador de apostilas, livros, relatórios. Além disso, acompanha e coordena programas junto de agricultores, dentro do conceito da Convivência com o Semi Árido. Atualmente integra a Coordenação Coletiva do IRPAA como coordenador administrativo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line– A imprensa tem informado que a atual seca do semiárido brasileiro é a maior dos últimos 50 anos. É possível fazer distinções entre a seca atual e a de outros momentos, mesmo considerando que este é um processo natural do semiárido brasileiro?

Haroldo Schistek – O termo "seca”, a meu ver, não cabe bem no contexto climático do semiárido. A palavra "seca” quer caracterizar uma situação climática excepcional, de baixa pluviosidade, numa região que normalmente apresenta chuvas regulares. Esta definição não se aplica ao semiárido brasileiro. Anos de mais baixa precipitação não devem assustar a ninguém, ao contrário, devem ser considerados como fator de produção. Quando um ano de baixa precipitação assusta a sociedade e os governos, isso é um sinal de que até hoje o semiárido é uma região mal compreendida. Para a natureza, os seus animais e plantas, um ano como este não é nenhuma catástrofe. Em milhares de anos souberam se adaptar e criar resistência. Uma catástrofe, isto sim, é a falta de preparo dos nossos governos. Tiveram três décadas, deste a última grande seca, para não, mais uma vez, serem apanhados de surpresa. Porém, precisam mais uma vez tomar medidas de emergência, gastar somas vultuosas para evitar maiores prejuízos econômicos e mortes da população.

IHU On-Line – Como as populações do semiárido brasileiro convivem com a seca e com as demais características do semiárido?

Haroldo Schistek – Na última grande seca de 1979 a 1983, fui convidado a acompanhar uma equipe de reportagem para retratar os acontecimentos no Sertão nordestino. Partimos de Recife, viajamos longitudinalmente pelo estado da Paraíba e atravessamos Pernambuco, em direção à Bahia. Foi assustador o que vimos. Levas de gente nas estradas, fogões de lenha nas casas, sem nenhuma brasa, armazéns da Cobal saqueados, e frentes de serviço fazendo estradas, que foram levadas pela primeira chuva. Mas quando atravessamos a ponte sobre o rio São Francisco e nos dirigimos para o Distrito de Massaroca, município de Juazeiro, parecia que tínhamos mergulhados em outro mundo. A feira abastecida de tudo que se precisa, farinha, feijão e rapadura, roupas e chocalhos. As árvores em torno eram ocupadas pelas cordas dos jegues e cavalos amarrados e o povo alegremente tomando sua pinga.

Um dos agricultores nos convidou para almoçar. Perguntamos: "Aqui choveu?”, porque por onde passamos só vimos fome e miséria. "Choveu nada”, foi a resposta, "só sobrou um pouco de mandioca na roça. Nem milho, nem feijão. Mas temos o criatório (cabras e ovelhas) e o pasto para eles é a Caatinga. Aqui é uma grande área de Fundo de Pasto. Aqui ninguém passa necessidade”, disse ele.

Momentos como esse fizeram descobrir e definir o novo paradigma da convivência com semiárido, jogando para o lixo da história o "combate à seca”.

E não foi muito diferente agora, com a seca atual: telefonei para a cooperativa de beneficiamento de frutas nativas, como umbu e maracujá do mato, a Coopercuc, que atende aos municípios de Canudos, Uauá e Curaçá, e o presidente me contou que conseguiram facilmente alcançar e até ultrapassar a meta visada, atendendo assim a todas as encomendas. Foram 190.000 toneladas de frutas nativas da Caatinga. E mais: nestas duas semanas passadas inauguraram três minifábricas para beneficiar frutas nativas, dentro das medidas do nosso programa de Recaatingamento. Foram eventos muito festivos, com churrasco de carne de bode, reunindo toda vizinhança do povoado interioriano. Os de fora se admiraram: onde está a seca de que tanto se fala? São comunidades tradicionais, que tiram seu sustento básico da criação de animais de médio porte e onde a Caatinga preservada é o fundamento.

Não podemos generalizar esta situação benigna. Pois a maioria dos agricultores, por circunstâncias históricas e políticas, são obrigados a sobreviver em cima de uma terra pequena e dependendo principalmente do plantio da roça.

IHU On-Line – A que atribui os impactos ambientais do semiárido brasileiro e a dificuldade de desenvolver a região? Há risco de desertificação no semiárido brasileiro?

Haroldo Schistek – Para entender mais sobre nossa região, o que ela oferece, onde ficam os limites e quais são as propostas para uma vida econômica estável, quero destacar alguns elementos.

Sobre o clima no Semiárido

A estiagem recente no semiárido brasileiro se enquadra no comportamento previsível do tipo climático, com suas chuvas irregulares, no tempo e no espaço geográfico. Quer dizer, nunca se sabe quando se terá outra chuva nem em que área ela cairá. Nem se sabe quando iniciará o período chuvoso, nem quando será a última chuva. E tem mais: a irregularidade é muito mais acentuada em certos anos. Não é novidade desde a grande seca dos anos 1980, que a cada 26 anos há uma estiagem forte.

São muitos os "ingredientes” que fazem chover ou que impedem a chuva no semiárido brasileiro: A Zona de Convergência Intertropical, el niño, la niña, frentes frias do sul, a temperatura da água da porção do Oceano Atlântico que se encontra entre o Nordeste do Brasil e África. Além das contribuições feitas pelos humanos, através de desmatamentos, plantios extensos de pastos e grãos inadequados, trazendo consequências, uma vez que, a terra despida da sua roupa de Caatinga aquece o ar demasiadamente e, por sua vez, empurra as nuvens em alturas inadequadas. Podemos dizer que a cobertura intacta da Caatinga é o regulador da temperatura e da chuva, mantendo a fertilidade das terras e amenizando as influências naturais sobre o clima.

O clima semiárido se instalou entre oito e dez mil anos atrás, e o comportamento das chuvas é mais do que documentado pelos viajantes e padres portugueses. A população nativa, porém, adaptou-se perfeitamente às chuvas irregulares, cobrindo toda área do semiárido com suas aldeias e caminhos migratórios.

Sobre a ocupação do Semiárido

A vida da população indígena integrada ao ambiente semiárido foi brutalmente interrompida pela invasão dos portugueses. Assim, o grande mal que se fez ao semiárido não vem de agora, ou do século passado. Vem desde a primeira invasão pelos portugueses e tem tudo a ver com a monocultura de cana-de-açúcar no litoral nordestino. O gado, indispensável para o manejo da cana-de-açúcar e para a alimentação da população humana, num certo momento, numa época em que não existia o arame farpado, não podia mais ficar próximo às plantações e foi, por decreto governamental, mandado para o interior. Já em 1640 se estabeleceu o primeiro curral para gado bovino no médio São Francisco, dando assim início a uma sequência até hoje mantida: uma política concebida fora da região, introduzindo algo não adaptado ao clima, servindo a interesses estranhos. Não demorou e se formaram dois imensos latifúndios que ocuparam toda a região desde o Maranhão até Minas Gerais: os morgados da Casa da Torre e outro da Casa da Ponte. Para o povo, só existia lugar como vaqueiro, que mantinha sua rocinha para alimentar a família, mas ele nunca poderia ser dono daquele pedaço de chão. Essa é a origem da agricultura familiar na região.

Estamos numa fase de nova invasão do semiárido, que é mais devastadora que a dos portugueses. São os grandes projetos que expulsam a população, destroem a caatinga, explorando os bens naturais, sem maiores benefícios para as populações locais, causando desertificação. A exemplo das mineradoras, grandes projetos energético e de irrigação. Tais projetos ampliam a concentração de renda, o êxodo rural. Para os grandes fica o lucro, e para o povo ficam as "bolsas”. Prometem "emprego” para um povo que não necessita de emprego, pois já tem seu ganho de vida, como homem livre, na agricultura e criação de animais, mas necessita de segurança na terra, e terra, em tamanho adequado para as condições de semiaridez.

IHU On-Line – O que tem impedido o desenvolvimento social e econômico do semiárido? Pode-se dizer que é a má distribuição de água e não a seca?

Haroldo Schistek – O problema não é a má distribuição da água, mas da terra. Precisamos assim, mais uma vez, insistir num fato que muitos preferem não mencionar, por ser incômodo, por tocar em privilégios de uma minoria e de ser perigoso e, em muitos casos, até mortal. Trata-se da questão da terra, ou melhor, do tamanho dela. A Embrapa Semiárido afirma que nas áreas da grande Depressão Sertaneja, as mais secas do Semiárido, uma propriedade necessita de até 300 hectares de terra para ser sustentável, sendo a atividade principal a criação de caprinos e ovinos. Assim, a principal forma de preservar o nosso bioma, a Caatinga, é garantir às famílias um tamanho de terra adequado às condições de semiaridez. Quanto menor a quantidade de chuva na região, mais terra se precisa.

Enquanto isso, qual é a realidade? Propriedades de dois, três, dez hectares, enquanto no outro lado da cerca uma única pessoa possui dois, três, dez mil hectares. É preciso elaborar uma proposta de reforma agrária apropriada às condições socioambientais do semiárido. Em muitos casos as famílias possuem terra, são da terra, mas só precisam dela em tamanho suficiente para ter uma produção estável, podendo garantir reservas e assim suportar as instabilidades climáticas. Sendo assim, poderemos esquecer para sempre os programas famigerados como O Bolsa Família, carros-pipa, cestas de alimentos e, ultimamente, O "Bolsa Estiagem”.

Evidentemente, o tamanho da terra necessário para viver bem no semiárido varia de região para região, depende da chuva, da fertilidade do solo, da formação topográfica. Mas sempre é maior do que de fato as famílias possuem, ou o que o Incra disponibiliza nos seus assentamentos e é alcançável financeiramente pela cédula da terra.

IHU On-Line – Como avalia o desenvolvimento do semiárido nos últimos anos? Como os sertanejos convivem com os períodos de seca?

Haroldo Schistek – Um jeito que o povo encontrou de viver bem no semiárido é se organizando em comunidades de Fundo de Pasto, forma tradicional de posse de terra no semiárido, remota desde as Sesmarias, e atende a esta característica: preservação e viabilidade econômica. As áreas de pasto não são individualizadas, não possuem cercas para separar cada propriedade. Os animais de todos os proprietários pastam livremente em toda a área, deslocando-se sempre para aquelas manchas verdes onde choveu recentemente. Com isso eles evitam superpastoreio e garantem animais bem alimentados. Organizando dessa maneira a terra, de forma coletiva, a área necessária por família pode ser bem menor, mesmo na Depressão Sertaneja: entre 80 e 100 hectares. A área do Fundo de Pasto fica sob a responsabilidade de uma associação, dos próprios donos. Temos belos exemplos de como essa forma organizacional eleva a consciência ambiental e protege a Caatinga, como na região de Canudos, por exemplo.

IHU On-Line – E no que se refere à distribuição da água, como resolver essa questão?

Haroldo Schistek – Uma região semiárida precisa diversificar as fontes de água, conforme sua utilização final. Mas precisa estar atenta à formação geológica. É teimosia escavar reservatórios profundos em áreas de calcário ou arenito e querer poços com água em quantidade com subsolo cristalino, onde não há lençol freático. Mas as cinco linhas de luta pela água valem para o semiárido, observando as variações conforme a geologia. A realização das cinco linhas de luta pela água precisa ser acompanhada pela preocupação de conquistar o tamanho de terra adequada às condições de semiaridez.

São estas as linhas:

– Água de beber, deve vir de preferência da captação da água da chuva em cisternas, que é construída no pé da casa, dando um acesso confortável à água aos moradores.

– Água para a comunidade para uso doméstico, banho, lavar louça e roupas, e para os animais, fornecida por meio de tanques, barreiros trincheira, estreitos, mas profundos, cacimbas, poços.

– Água para a agricultura, suprida por meio de barragens subterrâneas, irrigação de salvação (cisterna ou barreiro), captação em estradas para irrigação de árvores frutíferas, aração em curva de nível, com sulcos para armazenar água de chuva in situ; uso de esterco e cobertura seca para reter a umidade do solo para as plantas; cultivo de variedades adaptadas às condições climáticas.

– Água de emergência para os anos de longa estiagem, fornecida por poços profundos e pequenas barragens estrategicamente distribuídas. Este ponto é uma solução transitória, enquanto os três pontos anteriores não foram completamente alcançados.

– Água para o meio ambiente: proteção de olhos d’ água e da mata ciliar, prevenção de poluição de aguadas, não desmatar a Caatinga, nem queimar as roças. Pois a Caatinga intacta e o solo grumoso proporcionam uma boa infiltração da água chuva, evitando erosão. Além disso, o tratamento do esgoto, o reuso e a reciclagem da água para irrigação de capineiras e fruteiras, por exemplo.

Propostas

Essa visão deve ser a base para elaboração de Planos de Água Municipais, realizado em todos os municípios do Semiárido, elaborados pela sociedade civil e administração pública. É preciso construir propostas adequadas para abastecimento hídrico dos núcleos urbanos do Semiárido.

É importante, neste ponto, falar da transposição do rio São Francisco: é uma obra que visa beneficiar grandes empresas e empreendimentos, abastecer cidades litorâneas, mas não tem nada a ver com "matar a sede do nordestino” como a propaganda oficial martela. A divulgação dos supostos benefícios (que não fala da situação do rio São Francisco) parece muito eficiente: recebemos um tempo atrás um e-mail de gente do Sul nos chamando de "fora da realidade”, pois como podemos ser contra uma obra que finamente vai resolver o problema da água para o nordestino. Melhor do que muitas palavras para explicar e responder, vou citar um lavrador de Pernambuco que falou mais ou menos assim: "Para resolver os problemas do semiárido, não precisamos apelar para o São Francisco. O São Pedro dispõe de água mais do que o suficiente para sermos uma região próspera”.

IHU On-Line – Que políticas públicas são necessárias para garantir o desenvolvimento do social, econômico e ambiental do semiárido?

Haroldo Schistek – O bioma Caatinga é a garantia para a vida do povo, é o patrimônio nativo do Brasil e é um bem que deve ser herdado de maneira intacta pelos filhos e netos. Onde a Caatinga não existe mais, os efeitos de estiagens são muito mais devastadores. Portanto, menciono oito preceitos da produção apropriada para o semiárido.

1. Perseguir a sustentabilidade para não ocorrer desertificação: criação de animais de maneira inadequada, animais impróprios para o semiárido, desnudação de grandes áreas e plantas que não suportam o clima, além da concentração fundiária, são as causas da desertificação.

2. Recaatingamento para repor a vegetação e riqueza da Caatinga perdida.

3. Tamanho da terra: os zoneamentos agroecológicos realizados pela Embrapa precisam, além de mostrar o uso correto da terra, conforme a configuração edafoclimático, indicar também a área mínima para que uma propriedade seja viável, mesmo em anos mais secos. Esses dados devem ser a base para titulação de terras e assentamentos do Incra.

4. Priorizar a produção animal de pequeno e médio porte, pois o semiárido é por excelência uma região pecuária.

5. Para manter a riqueza da Caatinga e seu aproveitamento racional para a criação de animais e extrativismo, precisa-se do manejo correto, fazer reservas alimentares para os meses sem chuva e maiores do que para um ano, para não precisar comprar "farelos” na cidade. Isso deve ser o ponto de partida, para a Assistência Técnica e Extensão Rural.

6. Em regiões, microclimas/nichos climáticos, onde a agricultura pode ser indicada, é indispensável a escolha de plantas que consigam lidar com a grande irregularidade das chuvas. Porém, para que o agricultor tenha depois sucesso na venda dos seus produtos, espera-se mais flexibilidade dos órgãos estaduais na promoção de sua comercialização. Assim, o Seguro Safra pode ser algo do passado ou então existirá somente para anos extremos.

7. O extrativismo e consequente beneficiamento e comercialização a exemplo do Umbu, do maracujá do mato e outros, tem mostrado o grande potencial financeiro e também em termos de preservação do bioma, quando a agricultura familiar assume a etapa da transformação dos produtos primários. A inclusão destes produtos nos programas locais de alimentação deve ser prioridade de todos os níveis governamentais. Não há como tolerar que uma prefeitura compre doce de goiaba, de péssima qualidade, de um fornecedor do Rio Grande do Sul, enquanto na porta são disponíveis produtos locais, orgânicos e reconhecidos pela qualidade.

8. Devido ao grande potencial da Caatinga e a pouquíssima expressividade de áreas irrigadas, somente em torno de 2% do semiárido são economicamente aptos para a irrigação, as universidades de agronomia e escolas técnicas do Semiárido devem concentrar esforços para um ensino agronômico dirigido para a região.

A educação contextualizada

O mais importante é a educação contextualizada. Não se pode pensar o semiárido brasileiro com seu bioma Caatinga de forma isolada, com propostas setoriais. A educação escolar tradicional tem contribuído muito para divulgar uma imagem de inviabilidade econômica, feiura e morte. Ainda recentemente encontramos um livro didático, no capítulo sobre os biomas brasileiros, que mostrava uma foto da Caatinga nos meses da estiagem, com a legenda inacreditável: "Caatinga morta”. Na verdade, os arbustos e árvores retratados somente estavam em hibernação, cheios de seiva e nutrientes, esperando apenas a primeira chuva para se vestirem novamente em abundantes roupas de folhas e flores. Ou seja, precisamos de uma educação contextualizada, que leve o contexto da vida dos alunos, as plantas da Caatinga, a sua casa de adobe, para dentro da sala de aula. Tivemos experiências magníficas nesse sentido com os alunos, prestando atenção de maneira inacreditável, sendo as faltas às aulas quase não registradas. Materiais didáticos nesse sentido já existem. Precisamos que o Ministério da Educação e Cultura faça uma volta de 180 graus em termos de políticas educacionais, pois não é somente necessário que exista material didático apropriado: é indispensável que a formação de professores nas universidades seja, desde o início, no sentido da contextualização e que a formação continuada do corpo docente acompanhe a proposta. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nos dá respaldo total nesse sentido.

É importante ressaltar que a educação contextualizada tem princípios universais e deve ser trabalhada em todas as realidades, não somente restrita aos ambientes rurais, mas deve alcançar também as escolas nas cidades, sedes dos municípios. Muitos dos alunos da área rural hoje em dia estudam nas cidades, por força da legislação das escolas nucleadas. Além disso, o bioma da Caatinga circunda todas estas aglomerações urbanas. Muitos dos alunos possuem raízes nele e precisam ter a oportunidade de receber as informações corretas. Outro aspecto importante e necessário é que a educação contextualizada seja pautada pelas universidades, e em todos os espaços educacionais.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Haroldo Schistek – Fica a pergunta: como vamo-nos prevenir contra a próxima grande estiagem?

Assistimos, mais uma vez, o desfile dos carros-pipa, o ressurgimento com toda força da indústria da seca, agora enriquecida com novos elementos perversos, e lamentamos, mais uma vez, décadas perdidas pelos governos, nas quais poderia ter dotado o semiárido com infraestruturas e políticas corajosas para que nunca mais se repetisse algo como a seca dos anos 1980.

Mas sabemos que, para o povo, agora é a hora de cuidar da vida, ter carro-pipa, achar preço bom para os animais, procurar emprego para alimentar a família. Ir atrás de subsídios do governo. Serão longos meses de sol quente, de poeira e de muitas caminhadas e viagens. Será uma luta, uma batalha, até alcançar a próxima chuva.

Mas como em toda batalha, existe sempre o pensamento sobre o que será depois, e o que podemos e devemos fazer para que nunca mais sejamos surpreendidos por uma situação com esta agora. Ou será que depois das primeiras chuvas encherem as cisternas e os campos se tingirem de verde, pensemos que nunca mais se repetirá uma estiagem como esta?

Com certeza se repetirá e pode ser pior, desde que o processo de desmatamento e a concentração da terra continuem. Provavelmente se junte até um novo ingrediente: pode ser que o aquecimento global acentue a irregularidade e aumente a evaporação da água.

Os conceitos acima ainda são incompletos, mas básicos e propõem uma meta a alcançar nestes próximos 26 anos. Eles se enquadram no paradigma da Convivência com o Semiárido. São propostas estruturantes, que garantem a autonomia dos agricultores familiares. Pois é, querendo combater a seca, nunca ganharemos. A convivência com o semiárido procura entender a natureza cada vez mais e organizar a vida e a produção conforme os parâmetros encontrados.

Fonte - IHU – Unisinos- Instituto Humanitas Unisinos

Adital

terça-feira, 5 de junho de 2012

LEI DA FICHA LIMPA – 2º ANIVERSÁRIO

LEI DA FICHA LIMPA – 2º ANIVERSÁRIO
TARCÍSIO JOSÉ DA SILVA[1]

Em 4 de junho, a Lei da Ficha Limpa (LC nº 135/2010) completa seu 2º aniversário. Fruto de uma forte mobilização social da OAB, CNBB, MCCE, IMLB. MPMPL e demais entidades de combate à corrupção eleitoral e da sociedade. Ela veio para ficar.

A reflexão que se faz neste momento é que ela irá cumprir os objetivos para os quais foi criada, ou seja: moralizar a gestão pública e restabelecer a ética e a moral política, abaladas pelos os atos de corrupção, improbidade administrativa e desvios de recursos públicos, sem precedentes na história da República.

Por se tratar de uma lei de inelegibilidade, portanto, de cunho eleitoral, no início foi aplicada timidamente, considerando que havia interpretações divergentes nos Tribunais Eleitorais quanto a sua aplicabilidade às eleições de 2010, sua retroatividade a fatos passados e se alcançaria os agentes políticos no exercício do poder, além do alegado vícios de inconstitucionalidade em razão da presunção da inocência.

Após quase dois anos, onze sessões de julgamento e ampla e calorosas discussões jurídicas, a Lei da Ficha Limpa finalmente foi considerada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 16 de fevereiro de 2012, e será aplicada em sua plenitude às eleições municipais deste ano. Pela decisão, a lei atingirá atos e crimes praticados antes da sanção da norma. Não poderão se candidatar, até oito anos após o cumprimento da pena, políticos condenados por órgãos judiciais colegiados, por crimes dolosos, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, desvio do patrimônio público, improbidade administrativa, corrupção eleitoral, compra de voto, entre outros previstos na lei, mesmo que ainda possam recorrer da decisão e os que tiveram suas contas desaprovadas pelos órgãos públicos de controle externos.

Também estarão impedidos de disputar às eleições aqueles que renunciaram aos seus mandatos para fugir de processos de cassação por quebra de decoro parlamentar e também aqueles que tenham sido excluídos do exercício da profissão em decorrência de infração ético-profissional em seu órgão de classe.

Assim, a Lei da Ficha Limpa incorporou-se definitivamente em nosso ordenamento jurídico eleitoral, estando, então, os Tribunais Eleitorais, os órgãos do Ministério Público e os Tribunais de Contas preparados para o embate.

Resta-nos agora ampliar a Lei da Ficha Limpa às nomeações para cargos comissionados e admissão de servidores dos Poderes da União, dos Estados e dos Municípios.

Nesta data, só temos a comemorar a oportuna e benfazeja Lei de Iniciativa Popular que o Congresso Nacional não pode rejeitar e que agora é pra valer.

Parabéns, pois, a sociedade que deu um basta a políticos corruptos, visando restabelecer a moralidade administrativa e a ética na política brasileira.

Seja bem-vinda a Lei da Ficha Limpa e parabéns neste seu 2º aniversário.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

A dor da seca e das cercas continua no Nordeste.

A dor da seca e das cercas continua no Nordeste.
Gilvander Luís Moreira[1]
Início de junho de 2012, no sertão da Bahia, depois de tantas promessas com o projeto da transposição do Rio São Francisco. Uma criança de nove anos, com uma irmãzinha menor no colo, carrega um balde de água na cabeça, servida por um caminhão pipa. A mãe foi para São Paulo para trabalhar de doméstica e envia, mensalmente, o pouco que ganha para a família. Eis uma cena que nos leva às lágrimas. Mais uma vez a seca está campeando no semi-árido brasileiro. Quem tem coração chora ao ver e sentir as agruras dos pobres e animais sem água. Estudos do Instituto de Atividades Espaciais – IAE -, de São José dos Campos, SP, prevê, através do “Prognóstico do Tempo a Longo Prazo”, que a cada 26 anos ocorre uma grande seca em todo o semi-árido brasileiro. Grave é que esta seca instalada agora promete durar todo o ano de 2012 e também por todo o ano de 2013. Mais grave é o alerta que nos faz o engenheiro Manoel Bomfim Ribeiro – com a autoridade de uma vida dedicada à causa dos pobres do semi-árido, ao Projeto de Convivência com o semiárido -, no artigo “A seca no estado da Bahia”. Diz ele:
“O Semi-Árido dos quatro estados Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco soma uma área total de 327.000 km² e o da Bahia sozinho tem 320.000 km², praticamente igual à área dos quatro estados. Desde o final do século XIX aqueles estados começaram a luta pela geração de água construindo açudes de maneira obstinada. A seca de 1877/80 foi tirana ceifando 500.000 vidas, 10% da população nordestina que era na época de 5.000.000 de habitantes. Uma grande calamidade. Morriam de fome, sede, tifo, bexiga e outras endemias. Os flagelados andrajosos e famintos perambulavam pelos caminhos à deriva, sem destino, arrastando filhos pelo braço. Houve até casos de antropofagia. A cidade de Fortaleza superlotou de famintos, foi organizada a turma de enterros. A cidade estava nauseabunda, sepultavam 400 a 500 pessoas diariamente. Num só dia foram enterrados 1.012 mortos em vala comum. Uma grande tragédia registrada na história do Nordeste e jamais esquecida.
Juntar água foi, então, o grande objetivo de todos os nordestinos uma vez que estes reservatórios se tornaram essenciais para melhorar os terríveis efeitos da seca. O açude é um núcleo de vida, de atividade social e econômica, sobretudo nos períodos calamitosos de secas.
A nucleação em torno da açudagem foi de tal importância que os nossos técnicos se tornaram os maiores barrageiros do mundo e ao longo do século XX construíram a maior rede de açudes do planeta Terra, mais de 70.000 açudes armazenando 40 bilhões de m³ de água, volume igual a 16 baias da Guanabara. O sertão virou mar.
O Semiárido baiano, entretanto, ao longo do século XX, ficou totalmente esquecido pelos governantes apesar da sua mais baixa pluviosidade. Não participou da epopéia nordestina gerando e acumulando água para os períodos inditosos. Não tivemos um programa específico e determinado de construir uma estrutura hídrica... O Semi-Árido baiano se constitui, portanto, na maior solidão hidrogeográfica do Brasil... O Semiárido setentrional está anos-luz à frente do baiano, preparado para a grande seca e nós aqui no estado da Bahia ainda estamos de calças curtas.”

Nesse árduo contexto, participamos na cidade de Januária, norte de Minas, de 25 a 27 de maio de 2012, do III Encontro popular da bacia do rio São Francisco, promovido pela Articulação Popular São Francisco Vivo.[2] Participaram dezenas de representantes das lutas de defesa do Rio, do povo e de todo seu bioma, lutas que estão em curso na Bacia Sanfranciscana - de Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Foi um encontro de resistência. Foi reconfortante (re)encontrar tantas pessoas militantes da mesma causa: a do rio São Francisco, do seu povo e de toda a biodiversidade existente na grande bacia do Velho Chico.
Que beleza perceber que os povos tradicionais – quilombolas, indígenas, geraizeiros, vazanteiros, comunidades de fundo e fechos de pasto, pescadores, ribeirinhos – estão firmes resistindo aos projetos capitalistas. Resistem para continuarem existindo!
Visitamos algumas aldeias do povo indígena Xacriabá, no município de São João das Missões, MG. Foi emocionante constatar como os nossos parentes indígenas têm uma mística/espiritualidade que os move a conviver com a terra, as águas e toda a biodiversidade com uma postura de veneração pelo divino que está em todos e em tudo. Os Xacriabás estão lutando pela conquista de seu território integral. Cerca de 50 mil hectares de seu território ainda continuam grilados.
Visitamos também três comunidades do Rio dos Cochos que, com o apoio da Cáritas, há mais de dez anos, estão revitalizando o Rio dos Cochos. Com os frutos do cerrado fazem suco, doces, remédios, renda familiar. Fizeram barraginhas com lombadas para contenção das enxurradas e aproveitamento das águas pluviais. Replantaram matas ciliares, tendo, inclusive, matas ciliares doadas para a universidade fazer pesquisa. Recuperaram nascentes e as preservam. Cobram políticas públicas de saneamento e de preservação ambiental em toda a região.
Na análise da conjuntura ficou claro que a Transposição das águas do rio São Francisco vai de mal a pior. Obras paradas com rachaduras, um grande número de famílias expulsas de suas casas, povo desiludido. As promessas estão se revelando falsas, conforme denunciou com autoridade o bispo dom Luiz Flávio Cappio. “Várias construtoras largaram a Transposição e foram fazer obras da COPA. Exigem aditivos contratuais acima de 40%. Quem acreditou na propaganda da transposição está desiludido. Cadê os empregos? Demissões estão acontecendo aos montes”, denuncia padre Sebastião Gonçalves, da Diocese de Floresta, PE.
Todos os que estão participando do Projeto de Convivência com o semi-árido dizem: “O problema do Nordeste não é a seca, mas são as cercas do latifúndio, do hidro e agronegócio, da indústria da seca que se compõe de obras faraônicas tal como a Transposição do Velho Chico, a Transnordestina, as monoculturas, grandes projetos para exportação.”
Após muitas trocas de experiências, palestras, debates e planejar a continuidade da luta, o Encontro encerrou-se nas águas do Velho Chico, onde os indígenas cantaram e todos, em duplas, se “batizaram” nas águas que clamam por revitalização. Assim, revigorados na esperança e conspirando uma causa justa e sublime voltaram para suas bases, os de Alagoas e de Sergipe tendo que pegar 36 horas de viagem.
Voltaram para suas bases com o compromisso com a luta reafirmado. Lá nas bases, sobretudo os que estão no Nordeste, sabem que a cena acima apresentada, uma criança de nove anos com a lata de água na cabeça e uma irmãzinha no colo tem sido as cenas do dia-a-dia, com a falta de chuva e de políticas públicas que priorizem, de fato, a convivência com o semiárido.
Eis, abaixo, o Documento produzido pelo III Encontro Popular da Bacia do São Francisco: a Carta de Januária, documento profético e inspirador.
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CARTA DE JANUÁRIA
III ENCONTRO POPULAR DA BACIA DO SÃO FRANCISCO
“Por uma revitalização popular.”
Nós, indígenas, quilombolas, comunidades de fundo e fechos de pasto, pescadores, ribeirinhos, geraizeiros, comunicadores populares, pastorais, ONGs, representantes do povo do rio São Francisco, reunidos entre os dias 25 a 27 de maio de 2012, em Januária/MG, constatamos a triste e repetitiva situação de nosso rio e dos povos que lhe pertencem, mas também as resistências, lutas e esperanças populares.
A revitalização do governo não anda. Os investimentos em saneamento existem, mas é impossível ver resultados concretos. Não há controle sobre as obras, não há transparência. Em termos de ação governamental é a única iniciativa da propalada revitalização em toda a bacia.
A degradação continua em nível crescente.  O despejo incessante de agrotóxicos e esgotos sem tratamento; o desmatamento e o assoreamento do leito dos afluentes e do próprio rio; o uso abusivo de suas águas por empresas ligadas ao ramo do agro e hidronegócio e da mineração; os grandes projetos de irrigação para monoculturas de exportação e a exploração do setor elétrico só vêm a agravar o imenso passivo socioambiental que historicamente se acumulou na bacia.
Há uma resistência heróica de várias comunidades para “resistir e existir” em seu lugar, mas continua a expropriação de terras e territórios dos povos que tradicionalmente ocupam a bacia, contra os quais persistem as ações violentas de despejo, perseguição, criminalização e assassinatos, bem como o descaso e a lentidão nas ações de demarcação e titulação dos territórios. Por outro lado, têm-se a cessão ilegal desses territórios para domínio de grandes empresas e implantação de atividades que exploram os bens naturais de forma criminosa e ainda impedem o acesso à terra, às águas e aos peixes do rio. Todas são práticas que ameaçam a existência físico-cultural de muitas das comunidades do São Francisco.
Persistem a ausência de políticas públicas apropriadas ao semiárido e ao cerrado brasileiros e a recorrência de fenômenos naturais como a seca, onde o governo ainda se vale de ações emergenciais e assistencialistas que acabam por sustentar os interesses político-econômicos da “indústria da seca”, sobretudo em anos eleitorais como esse. No mesmo sentido, a opção equivocada pelas grandes obras hídricas, como a transposição de águas do rio São Francisco, cujo atual estado das obras e superfaturamento dos contratos só vêm a comprovar as denúncias realizadas por tantos que se contrapuseram ao projeto. O que temos de positivo no semi-árido são as iniciativas da sociedade civil na lógica da convivência com o semi-árido.
O São Francisco é um rio dos cerrados mineiro e baiano, responsáveis pela quase totalidade de suas águas. A expansão do agronegócio, das hidrelétricas e das mineradoras nestas regiões tem acelerado violentamente a depredação dos bens naturais e culturais destes cerrados. Passa da hora a aprovação das Propostas de Emenda à Constituição - PECs - que tornam patrimônios nacionais o cerrado e outros biomas e criam fundos públicos para sua preservação. Não há saída sem restringir e submeter a ação do capital sobre a natureza e os povos.
Repudiamos as políticas de intervenção no Rio São Francisco previstas em planos atuais e futuros do governo federal, como a proposta de implementação de usinas nucleares - a exemplo da usina no município de Itacuruba, PE -, a implementação de parques eólicos por meios que agridem as comunidades e o ambiente, a expansão das atividades de mineração e dos grandes projetos de irrigação; a proposta de emenda constitucional 215 e a ameaça de revogação do Decreto 4887/03, objeto de manobras da bancada ruralista e que ameaçam a efetivação dos direitos territoriais das comunidades tradicionais, significando imenso retrocesso democrático no nosso país.
Vimos aqui mesmo em Januária e na vizinha São João das Missões experiências significativas de revitalização popular do Rio dos Cochos e do território reconquistado pelo Xacriabás, respectivamente. Nossos povos têm iniciativas que precisam ser consideradas e valorizadas na revitalização do rio São Francisco. Basta que aqueles que governam tenham olhos para ver. São estas experiências as estrelas que guiam nossos passos. Continuamos a fluir com as águas do nosso rio. Parar, jamais. Nosso destino é o oceano da justiça, da solidariedade e da paz.

São Francisco Vivo, terra, água, rio e povo!
Januária, 27 de maio de 2012.

Colônia de Pescadores Z-026, Pescadores do Baixio de Irecê, Rizicultores de Sergipe, Comissão Pastoral da Terra BA/MG/Nacional,Conselho Indigenista Missionário PE/MG, Conselho Pastoral dos Pescadores Nacional/ BA, Associação de Fundo e Fecho de Pasto, Povo Pankará, Povo Xacriabá, IRPAA (Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada), AATR (Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia), CETA/BA, SINDSERV/SE, SINTAGRO/BA, STR Porteirinha, STR B. Jesus da Lapa,EFA Guimarães Rosa, Cáritas Diocesana de Januária, Movimento pelas Serras e Águas de Minas, Diocese de Floresta, Diocese de Bom Jesus da Lapa, Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Salitre, Associação Quilombola de Brejo dos Crioulos (MG), Associação Quilombola de Brejões dos Negros (SE), Associação Quilombola de Barra do Parateca (BA), CADAESF, Assent. 17 de abril,MPA/SE, Escola de Fé e Política, ACOMA.

Eis, abaixo, algumas entrevistas, em vídeo, que eu, Gilvander Moreira, gravei durante o III Encontro Popular da bacia do São Francisco.


1)    Transposição do rio São Francisco: bem disse dom Cappio. Padre Sebastião e Ruben. 02/06/2012.

2)    Povo indígena Xacriabás, no Norte de Minas, luta pelo seu território. Juvenal Seixas. 31/05/2012.

3)    Quilombo Brejo dos Crioulos, no Norte de Minas: José Carlos (o Veio) e Alvimar (CPT). 31/05/2012.

4)    Soraya Fanini no III Encontro da Articulação Popular da bacia do rio São Francisco. 30/05/2012.

5)    Roberto Malvezzi (Gogó): Por uma revitalização popular do rio São Francisco. 30/05/2012.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 de junho de 2012.


[1] Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; professor do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte – e no Seminário da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.brwww.twitter.com/gilvanderluis - No facebook busque “Gilvander Moreira”.

domingo, 3 de junho de 2012

PASTORAIS SOCIAIS DA DIOCESE DE IGUATU VISITA PAROQUIA NOSSA SENHORA DO PERPETUO SOCORRO ACOPIARA

com o objetivo de fortalecer as pastorais sociais, trazer para o debate as questões mais gritantes da atualidade no nosso municipio, no estado e no Brasil., nos organizarmos para o combate a corrupção e fiscalização dos recursos publicos. a comissão episcopal para o serviço da caridade,justiça e da paz, esteve participando de uma reunião no ultimo sabado dia 02 de Junho de 2012 na Paroquia Nossa Senhora do Perpetuo Socorro Acopiara. a referida reunião foi um momento de muita partilha,debates e encaminhamentos Sobre os Rumos de como atuaremos nesse campo da justiça e do bem comum.